CONTINUAÇÃO.

EU E O TEATRO (II)


 
... Faltei ao ensaio.
 
No sábado seguinte, com meu olhar ainda inocente de bom menino, simplesmente disse a verdade à professora. Ela, com seu olhar severo e seus gestos sempre nervosos, disse: "se quiser aprender teatro, vai ter que decidir abrir mão de qualquer outra coisa. O teatro é ciumento e não divide seus pupilos com o resto do mundo. Ou o teatro, ou o resto do mundo!"
 
Preciso dizer? Um ariano, com ascendente em sagitário e lua em escorpião não se entrega tão facilmente. E muito menos a qualquer um. E eu lá sabia quem era esse tal de "teatro"? Que queria exclusividade e dedicação integral? Eu era apenas um adolescente, bonitinho, inteligente e que adorava viver a vida com toda a intensidade. Como poderia me restringir a apenas uma coisa? Eu gostava mesmo era dos amigos, das festas, das namoradas! Aquela coisa enfadonha de ficar horas e horas fazendo exercícios de voz e de postura, de ficar "brincando" de roda, de apertos, de correria dentro de um círculo? Nada! Eu nem mesmo sabia por que estava lá, fazendo aquilo! Sem pestanejar disse-lhe que estava me dirigindo, naquele exato momento, ao "resto do mundo", que era o meu verdadeiro lugar. Virei as costas e saí do anfiteatro do colégio, em meio a um silêncio enorme. Durante a semana fiquei sabendo que outros três ou quatro se levantaram e, sem qualquer palavra, saíram definitivamente do grupo.
 
Na estréia da peça (muitos meses depois) o Mestre Carpina foi representado pela garota magricela e nariguda que, anos mais tarde estava trabalhando como atriz profissional em teatros de verdade. Já moça feita e, ultrapassadas as transformações da puberdade, conseguiu transformar-se numa linda moça, cujo nariz não mais parecia tão grande e combinava perfeitamente com um bonito rosto num corpo de mulher. Não lembro o nome dela, mas sei que não está no primeiro time das atrizes de teatro e muito menos de televisão. Mas deve continuar pelos palcos.
 
Ainda durante o período de ginásio, o meu amigo Marcos, que não desistiu de ser ator, mas acabou virando um próspero advogado e feliz pai de cinco filhos, me convidou para assistir "O Milagre de Anne Sullivan", num teatro do Bom Retiro (em SP), cujos ingressos um dos atores da peça lhe havia dado. Esse foi o meu primeiro contato real com o verdadeiro teatro! A sensação quase religiosa de entrar num teatro de verdade trouxe a descoberta  de que sua arquitetura era completamente diferente da dos incontáveis cinemas que eu já conhecera. Seus camarotes, balcões e poltronas estofadas; jogos de cortinas que se abriam para os lados enquanto outra subia, revelando a magia do palco. Diferentes planos e decorações mostrando o cenário pronto para exibir a peça, que receberia diferentes jogos de luzes enfatizando determinadas cenas e tramas. Tudo isso foi me pegando por dentro e apertando meu coração, num desejo imenso de poder estar lá, naquele palco, no centro das atenções, no meio da trama alí representada. Assistí à peça como se estivesse sonhando um sonho bom. Enfronhei-me dentro da história, sentia-me, ora um, ora outro personagem. E ao término, após a útlima reverência dos atores para agradecerem os aplausos, eu saí de lá com o coração apertado. Naquele momento, se minha antiga professora quisesse, eu abriria mão de qualquer outra coisa e me dedicaria com afinco à arte teatral.



 Zeca - 20h49
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